sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

XXXIV

Um menino me pediu dinheiro
Na rua escura de um dia
Me pediu dignidade
Em sua voz perdida de fome
Vieram os homens
Cataram o menino e o levaram
Para onde pensei
Para algum poço escuro
Algum calabouço
Algum cala boca
Pois essa pequena burguesia
Não suporta tanta miséria exposta
Perdem a fome de comer
E se sentem mal
Não pelo menino
Mas por sua própria insensatez...

XXXIII

Até quando continuar
A miséria do Bolsa Família
Até quando esses grilhões
Quando então parar
E finalmente dignificar o ser
Tirar dos currais
Esse povo e dar-lhes
Um futuro que sonham
Tirar de suas bocas a farinha
Seca do solo sertanejo
E devolver-lhes o caviar da vida
Até quando a miséria
Vicejará nos lares
Até quando teremos
Homens bois
Para serem servidos
Nas filas eleitorais?

XXXII

Manoel morreu preso às ferragens
Não tinha cinto de segurança
Não tinha seguro de vida
Não tinha vida segura
Morreu não como nasceu
Apenas morreu
Ao som da cortadeira de latas
Ao grito de bombeiros
No alarde das pessoas
Eu vi seus olhos secar
Vi um homem morrer
Morri com ele também
Na cor da noite escura
Nos seus gritos de dor
Morrer pode ser escandaloso...

XXXI

A luz filtrou teus olhos
Mel em favos adocicou 
Minha vida sua morada
Dentro deles me perdi
Longe deles me esqueci
Do tempo que corre
Para perto de ti
Algo dentro de mim
Rasgou o tecido roto
Do meu corpo
E fez brotar uma explosão
Bebendo o hidromel
De seus lábios
Uma galáxia se formou
Deus, inteligência suprema
Pequeno nada meu
Onde escondes esses caramelos
Por que tirá-los de mim
Como tiraste de Adão
O paraíso perdido...

Para Dani Garcês Viana

XXX

Se a navalha não corta a carne
Não há motivo para poesia
Não há motivo para o canto
Nem para um simples verso
A poesia é uma forma de assombro
E o mundo é tão distante
Que poucos sabem alguns versos
Todos querem se esquecer
Em meio aos prédios
Às cidades entre ruas sujas
Bêbados carros e cachorros
Minha matéria é o verso
E versando sobre verso o tempo
Presente passado e distante
Em minha carne arde a navalha do poema

XXIX

Vou cantá-la onde for
Vou pôr em minha boca seu nome
Vou fazer um mantra
Uma oração pessoal a um deus
Especial tempo de sua voz
Vou dizer a todos o que sinto
Fazer versos únicos úmidos
Da matéria chamada amor
Do fugaz tempo do nada
Rachar a memória do dia
E procurar por sua pessoa
Vou cantá-la no amor na dor
Em qualquer canto de minha voz
O canto de um homem só
Para uma mulher única...


Para Daniela Garcês.

domingo, 15 de dezembro de 2013

XXVIII

Hoje acordei num sonho
Sonho que sonho acordado
Acordado sonho sonhado
Que em ti sonhava
Meu sonho sonhado
Acordei e não queria
Sonhar não podia
Ah! Vida de sonhos
Quando enfim 
Em mim farás casa
Para que nunca mais
Tenha de sonhar...
Esse sonho acordado...

XXVII

Por mais que aconteçam Coisas
O mundo continua
O sentido deste mundo
É o meu próprio
O outro é o meu sentido
Nessa direção diária
Nenhuma filosofia me explica Nada
Eu tenho de me explicar
Perceber entender e conhecer
A epistemologia do viver
Dessa coisa nadificada pelo tempo
Que é seu próprio cadafalso
Caminha dentro do meu Ser
É preciso poesia em doses diárias
Para não morrer de enfarto de realidade.

XXVI

Vomitaram minh'alma na rua
Profundo troço torto
De boca aberta ao céu
Esse vômito frequente da náusea
Existe em toda esquina
Como os meninos que a rua
Vomitou em suas calçadas
Como esse cão que me lambe a mão
Eu ele nós golfados no mundo
Ninguém percebe essa doença da vida
Essa dor de estômago constante
De estar sempre continuando
Sem romper com a continuidade
A vida passando
O trem o ônibus o tempo
Dentro deste abandono
Que é o ser humano.

XXV

Hoje acordei num domingo
E não há espanto nisso
Quantos hoje também acordaram
Acordar é essa estrutura
De uma viajem que termina
Algo tão real vivia em nós
Olhos abertos matam o real
Já que a matéria do sonho
É tão fina que escorre
Pelas pálpebras abertas
Como deslizam as lágrimas
Para para fora do Ser
Acordei e a vida era a mesma
E me chocou continuar igual
O espanto que está dentro de nós
Me devora em meio à multidão
Quem dera sonhar acordado
O mundo azul lá fora
Fixo na rede invisível do nada
Hoje acordei num domingo
E o mundo continuava
Através de minha janela
Fechei os olhos
E voltei a dormir minha realidade...X

XXIV

Hoje acordei num sonho
Sonho que sonho acordado
Acordado sonho sonhado
Que em ti sonhava
Meu sonho sonhado
Acordei e não queria
Sonhar não podia
Ah! Vida de sonhos
Quando enfim 
Em mim farás casa
Para que nunca mais
Tenha de sonhar...
Esse sonho acordado...

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

XXIII

Da nívea elementar
Ninhada humana
Eleva-se teu ser
Dádiva da sede minha
Ninfa de rara beleza
Eleger a boca tua
Fonte inesgotável dos desejos meus
Estreitar-te o corpo num laço
Fazer de minh'alma teu refúgio
E descansar no teu abraço
Tocando-te a pele com beijos
Extrair de ti sussurros ínfimos
Penetrar o segredo de teu castelo
Empunhando a lança rubra
Atravessar-te o corpo úmido
E transportar-te a alma com leveza
Na força de teus gemidos laços
E dançar em pleno espaço
Como dança a terra em volta do astro.




XXII

Não quero expor
Está já          a face do
Está  bem               mundo
O mundo      exposta
Orbita a nossa
A velha órbita   volta obsta
E a mesma lua
Nada hermético   viu Adão
tem a dizer        solitário
na mesmo sol de novidade
face exposta Ainda gira
                   deste velho mundo.
O mundo já está pleno
Dentro de sua     de continuidade
Tudo já Própria exposição
                        está significado...

XXI

Ali estava um
                 cachorro
Em toda sua
          viralatalidade
À sua forma
                    Sendo
O que é
Livre de qualquer
                 discurso
Apenas Sendo
Sobrevivendo
          Uma sobrevida
De cão
Sem dono
Abandono

XX

O lixo do mendigo
                      é luxo
Ansiada sobra indesejada
Da vontade farta
Possibilidade de sobrevida
Necessidade imediata
Lixo e luxo
      se encontram
                  Tocam-se
         Tangenciam-se
Mas não se confundem
         Mesmo dividindo
                o mesmo palco
A fome é o lixo do mundo
O luxo é o lixo do ser